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Amamentação para um Começo de Vida Sustentável: Fortalecer o Que Funciona

Todos os anos, em agosto, a Semana Mundial do Aleitamento Materno traz um tema novo, definido pela WABA (World Alliance for Breastfeeding Action). Em 2026, o tema é “Breastfeeding for a Sustainable Start in Life: Strengthen What Works”, ou seja, “Amamentação para um começo de vida sustentável: fortalecer o que funciona”. Marca também o arranque de um novo ciclo de três anos da campanha WBW-SDG, agora focado na Área Temática 1: nutrição, segurança alimentar e redução da pobreza.

À primeira vista, parece um tema mais discreto do que os anteriores. Não vem propor uma ideia nova. Pede-nos que olhemos para trás, meçamos progresso e percebamos, com honestidade, o que já está a resultar. E é aqui que o tema se torna, na prática, mais exigente do que parece: exige-nos saber, com base científica, o que realmente funciona, e não apenas repetir o que sempre se fez.

O que significa, de facto, “o que funciona”

A ciência sobre apoio à amamentação já não é escassa. Entre a Série do Lancet sobre Amamentação (2023), as revisões Cochrane sobre intervenções de apoio, e décadas de avaliação da Iniciativa Hospital Amigo dos Bebés, há hoje um corpo de evidência robusto sobre o que efetivamente aumenta as taxas de início e duração da amamentação. Vale a pena separar por níveis.

No hospital e na maternidade, os Dez Passos para o Sucesso do Aleitamento Materno (OMS/UNICEF) continuam a ser a base mais estudada: contacto pele a pele imediato, apoio à primeira mamada na primeira hora, alojamento conjunto, e formação estruturada das equipas. A Série do Lancet de 2023 confirma que a Iniciativa Hospital Amigo dos Bebés produz um efeito maior quando é implementada como sistema, com recursos e apoio ao nível do próprio sistema de saúde, e não quando o custo e a responsabilidade são deixados a cargo de cada unidade isoladamente.

Depois da alta, o que mais evidência acumula é o apoio contínuo. As revisões Cochrane sobre este tema mostram que o apoio extra, seja de profissionais, de pares treinados, ou de ambos em combinação, reduz de forma consistente a interrupção da amamentação até aos seis meses. O efeito é maior quando o apoio é presencial (mais do que por telefone), oferecido de forma proativa e regular, e adaptado às necessidades reais de cada família, e não como um protocolo genérico aplicado a todas por igual. Nos países onde já existe acompanhamento pós-parto de rotina, o apoio de pares tem um efeito mais discreto do que em contextos com menos recursos, o que reforça algo que já sabíamos: o que funciona depende do que já existe à volta da família.

Depois há a estrutura maior: proteção da amamentação através da legislação, cumprimento do Código Internacional de Marketing dos Substitutos do Leite Materno, licenças parentais pagas e condições de trabalho compatíveis com a amamentação. A WABA chama a isto a “Cadeia Quente de Apoio”: a ideia de que nenhum destes níveis funciona isoladamente. Uma equipa hospitalar bem formada não compensa uma mãe que regressa ao trabalho três semanas depois sem qualquer condição para extrair leite. Um grupo de apoio na comunidade não substitui uma maternidade onde a primeira mamada nunca chega a acontecer.

Sustentável: fácil de implementar, baixo custo

O tema de 2026 junta duas palavras que raramente aparecem juntas em saúde pública: eficácia e baixo custo. E os números, aqui, são um argumento por si só.

Segundo o relatório “Nurturing the Health and Wealth of Nations”, elaborado pela UNICEF e pela OMS em conjunto com a Global Breastfeeding Collective, seria necessário um investimento de apenas 4,70 dólares por recém-nascido, por ano, para elevar a taxa global de aleitamento materno exclusivo até aos seis meses para 50%. O retorno estimado desse investimento: cerca de 300 mil milhões de dólares em ganhos económicos ao longo de dez anos, através da redução de doença, da poupança em cuidados de saúde e do aumento de produtividade, além de poder salvar potencialmente 520 mil crianças com menos de cinco anos. Ainda assim, o investimento global atual em promoção da amamentação continua muito abaixo disso: governos de países de baixo e médio rendimento investem cerca de 250 milhões de dólares por ano, com apenas mais 85 milhões vindos de doadores internacionais.

Esta é a definição prática de sustentável neste contexto: não é o que exige mais tecnologia ou mais equipamento, é o que já existe, tem evidência a comprová-lo, e custa relativamente pouco a manter: formar equipas, organizar grupos de apoio de pares, garantir tempo e espaço no local de trabalho, cumprir a legislação já existente. O maior obstáculo nunca foi a falta de soluções. Foi a falta de continuidade em aplicá-las.

Como fortalecer o que já funciona

Fortalecer não é começar do zero. É identificar onde a cadeia de apoio já está a resultar e proteger essa parte, ao mesmo tempo que se reforça onde está mais frágil. Na prática, isto tem um significado diferente consoante o lugar que cada um ocupa nessa cadeia.

Para os profissionais de saúde, fortalecer o que funciona significa continuar a investir em formação atualizada e baseada em evidência, porque a qualidade do apoio prestado nas primeiras horas e nas primeiras semanas continua a ser um dos fatores com maior impacto sobre a duração da amamentação. Significa também acompanhar de forma proativa, sem esperar que seja a família a procurar ajuda apenas quando já há uma crise instalada.

Para os serviços e instituições, significa tratar a Iniciativa Hospital Amigo dos Bebés e os Dez Passos não como um projeto pontual, mas como uma política sustentada, com recursos alocados e não deixada à boa vontade de cada equipa.

Para as entidades empregadoras, significa cumprir, e ir além do mínimo, em licenças parentais e em condições de trabalho compatíveis com a extração de leite, porque nenhuma intervenção clínica resiste a um regresso ao trabalho sem condições.

E para as famílias e comunidades, significa saber que este apoio existe, tem base científica, e que procurar ajuda não é sinal de fracasso. É, precisamente, parte do que já está provado que funciona.

É esta a missão que também nos move, na Academia de Lactação: capacitar quem trabalha diretamente com mães e bebés para que essa cadeia de apoio seja, de facto, quente e contínua, com segurança, empatia e base científica em cada elo.

Fontes

  • WABA / IBFAN, Breastfeeding for a Sustainable Start in Life: Strengthen What Works (WBW 2026): https://www.ibfan.org/wbw-2026-breastfeeding-for-a-sustainable-start-in-life/
  • WABA, Warm Chain of Support for Breastfeeding: https://waba.org.my/warm-chain/
  • The Lancet, 2023 Series on Breastfeeding: https://www.thelancet.com/series-do/breastfeeding-2023
  • Cochrane, Support for healthy breastfeeding mothers with healthy term babies (McFadden et al., 2017): https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD001141.pub5/full
  • WHO, Ten Steps to Successful Breastfeeding: https://www.who.int/teams/nutrition-and-food-safety/food-and-nutrition-actions-in-health-systems/ten-steps-to-successful-breastfeeding
  • Global Breastfeeding Collective / UNICEF / WHO, Nurturing the Health and Wealth of Nations: The Investment Case for Breastfeeding: https://www.globalbreastfeedingcollective.org/reports/nurturing-health-and-wealth-nations
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